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São José de Botas, o peregrino para o céu

Desde tempos remotos, é costume da Igreja Católica uma materialização do sagrado através da exposição de imagens. A finalidade está na veneração dos fiéis e, sobretudo, favorecer a catequese, motivando a imitação das virtudes dos santos para que os homens configurem suas vidas à vida de Cristo. Por detrás das esculturas e pinturas, da utilização dos gestos corporais, das cores e adereços próprios, encontram-se muitos elementos simbólicos que ensinam um pouco sobre o testemunho daqueles que gastaram suas vidas seguindo um propósito divino.

            Outro aspecto digno de nota está na preocupação de muitos artistas em tentarem retratar, nas características da arte sacra, uma identidade cultural semelhante daquele que contemplará tal obra. Portanto, muitas vezes é proposital a utilização de roupagens, perucas e demais acessórios para que exista uma aproximação do divino com o humano. Nisto o protetor se assemelha com seu devoto.

            Dentre tantas representações artísticas, a piedade popular tem particular devoção à São José, pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na maioria dos templos católicos encontram-se espaço dedicado ao esposo casto da Virgem Maria. Na Igreja Matriz de Sant’Ana, em Barroso (MG), não é diferente, já que em um dos belíssimos vitrais pode-se contemplar a ilustração do glorioso São José, no lado esquerdo da nave central.

            Várias são as expressões feitas de São José, assim como vastos são os seus patronatos. É muito comum encontrá-lo na composição do presépio que, ajoelhado, divide a cena do nascimento do filho de Deus. São José com o menino nos braços é uma figuração típica. A arte sacra também o traz como carpinteiro de Nazaré com os instrumentos de seu ofício, considerado protetor dos trabalhadores. São José dormindo, Patrono da Igreja, São José da Boa Morte, e entre tantos outros títulos e representações é, ainda, possível conhecê-lo.

            Neste ano de 2020 o escultor sanjoanense, Carlos Magno, executou um processo de restauração da imagem de São José de Botas que certamente compunha algum dos altares da antiga Igreja do Rosário que foi demolida para a construção da atual Matriz de Sant’Ana. Infelizmente não foram encontradas menções sobre o fato nos livros da paróquia, resta somente o relato oral das pessoas que conviveram com aqueles contemporâneos à época e que tinham essa lembrança na memória. A peça foi esculpida em madeira provavelmente entre o fim do século XVIII e início do século XIX, conforme sugeriu Magno.

            Esta iconografia da imagem de São José de Botas, além de portar a figura do menino Jesus e do tradicional bastão com lírio branco, traz o santo calçado com botas, por isso seu título. Acredita-se que tal adereço tenha relação à sua condição de caminhante por seu compromisso em salvaguardar a vida do menino Jesus quando no exílio para o Egito para se esconder de Herodes. Uma curiosidade é que foi, principalmente, pelo calçamento das botas que a devoção popular o atribuiu como santo protetor dos bandeirantes, justamente por usarem em suas roupagens calçados semelhantes e por estarem em constantes viagens.

            Em outros detalhes da referida imagem, nota-se o, já citado, bastão com o lírio que representa o homem escolhido pela Providência Divina para esposo de Maria. Dentre algumas versões, conta a tradição vinda dos apócrifos que havia alguns pretendentes para casar-se com Maria. Eles foram convidados a trazerem um bastão até o Sumo Sacerdote que tomaria tais bastões levando-os até o templo onde oraria ao Senhor para que houvesse uma manifestação que desvendasse o escolhido. O bastão apresentado por José floriu após as orações, já aos outros nada aconteceu, por isso José foi tido como preferido.

            O menino Jesus em seus braços evidencia sua paternidade. Mesmo não sendo seu pai natural, ele tem a função de tutor, de ser o chefe da família que lhe foi confiado. A Bíblia revela que pela confirmação da obra do Espírito Santo feita pelo anjo em sonho a José, ele assume Maria grávida e o mistério da encarnação. Segurar o menino também indica o cuidado e carinho com o qual José tinha com a criança, além de nos apresentar o Cristo, protagonista na história da salvação.

            Entre as colorações tradicionais perpetuadas nas vestes das imagens de São José estão:

Marrom: cor da terra, simboliza a humildade. Nas narrações evangélicas pouca coisa se fala do pai adotivo de Jesus, um dos fatos que fizeram com que a virtude da humildade fosse atribuída a ele. Também é a cor da madeira o que evidencia seu ofício de carpinteiro.

Roxo: faz alusão à penitência, a paciência e a confiança. São José se revela como penitente, paciente e confiante ao aceitar o propósito divino revelado pelo anjo, arriscando e replanejando sua vida pela vida de Jesus.

Azul: simboliza o céu, onde o colocou suas virtudes, e de lá assiste e intercede pela humanidade.

            Na história de José de Nazaré fica evidente que o encontro do divino com o humano se deu na instituição da família, e que foi por ele amada e defendida diante de tantas tribulações. Os gestos salvíficos da redenção da humanidade iniciaram-se, portanto, na vida cotidiana da Sagrada Família. Talvez não por acaso, dos poucos escritos bíblicos, a mensagem que se descortina é uma amostra do justo carpinteiro como uma imagem terrestre da bondade de Deus, assim como também o é o próprio Cristo.

            Por fim, a imagem de São José de Botas inspira os fiéis a estarem despertos e prontos para que, enquanto romeiros nesta viagem terrena para o céu, possam ter disposição para enfrentar os desafios cotidianos caminhando sempre nas pegadas de Cristo – Caminho, Verdade e Vida -, construindo, assim, um mundo de justiça e de paz.

            São José rogai por nós!         

Fonte de pesquisa: Curso de Josefologia, OSJ.

Leonardo Elias

Paróquia de Sant'Ana do Barroso
Criada por provisão episcopal de 17 de janeiro de 1884. Foi fundada por Antônio da Costa Nogueira em 1729.