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Homenagem ao Pe. Fábio

Homenagem póstuma ao saudoso Pe. Fábio Damasceno lida na celebração do seu 7° dia de falecimento na Igreja Matriz de Sant’Ana.

“Aquele que vos chamou é fiel, e é ele que vai agir” (1Ts 5,24) Serei impelido, na homenagem de hoje, pelo lema sacerdotal do estimado amigo Pe. Fábio José Damasceno. Proponho aqui um momento de memória e uma mensagem de gratidão pelo incansável serviço prestado à nossa comunidade paroquial e à cidade de Barroso.Deus chama e conduz seu povo. Com a diversidade de dons e carismas, Deus chama a cada um para uma missão específica. Não podemos ter dúvidas de que cumprir esse chamado requer escuta atenta, confiança plena e entrega. Um dia, no florescer da adolescência, Deus havia feito um convite muito especial ao menino Fábio Damasceno. Aproximadamente com seus 15 anos, o garoto resolve, responder afirmativamente o chamado de Deus. Talvez se inicie ali, seu seguimento fiel àquela que ele sempre recorria em suas necessidades: a virgem da Conceição Aparecida, modelo destemido de aceitação. Certamente, poderemos destacar a confiança como a maior virtude daquele que entrega sua vida e juventude. Ao subtrair de si mesmo os desejos tão humanos, e aceitar a viver uma vida mais austera, preocupada com o outro mais que consigo mesmo, o padre abre para si uma outra proposta de vida, mais superior, mais perfeita, mais ousada e, por que não, mais difícil: ser fiel a Deus. Lógico que esse não é unicamente um dever do sacerdote, mas de toda criatura. Todavia, quão difícil é ser fiel a Deus?Aos 24 anos, Fábio Damasceno é ordenado sacerdote e, desde lá, até o raiar do triste dia 09 de dezembro de 2020, Pe Fábio dedicou 32 anos de sua vida, àquele que o chamou. Destes 32 anos de sacerdócio, 31 foram doados à paróquia de Sant’Ana e ao Município de Barroso. Deus agiu na vida humana, familiar e pastoral de Pe Fábio, porque ele jamais deixou de confiar na fidelidade de suas promessas. Como resultado de sua estada entre nós, nunca nos sentimos órfãos, pois víamos nele a figura de um líder, pastor e pai; atento, por vezes bravo, risonho, alegre e sem dúvida alguma, fervoroso. Numa de nossas últimas conversas particulares, quando ele comemorava seus 32 anos de vida sacerdotal, ao me agradecer os cumprimentos através de um áudio, ele disse: “O caminho sacerdotal é muito difícil, eu já passei por muitas ciladas, muitas armadilhas, venci tentações, venci momentos de provações dificílimos. Nossa Senhora sempre esteve ao meu lado me guardando” “Deus me deu perseverança e hoje eu sou muito feliz como padre, e percebo que cada vez mais a minha fé e o meu coração se unem a Deus, e eu me sinto feliz realmente, feliz por ter essa vocação e por servir a igreja de Jesus Cristo”.A partir desse testemunho, quero fazer memória à grandeza de um homem, que mesmo diante das imperfeições e limites, ao ser “chamado por Deus” se tornou, entre nós, instrumento profético e santificador. Na triste manhã do dia 09 de dezembro, sobre nós barrosenses, descia do céu uma branda chuva que, poeticamente anunciava as lágrimas que desceriam dos nossos olhos. Na medida em que a notícia foi se espalhando, a atmosfera sobre nós sufocava. As lágrimas foram mais intensas e até a chuva, acanhada com nosso sofrimento, deu tréguas. É aplicável ao momento que vivemos no dia 09 de dezembro, aquilo que o mesmo Pe Fábio disse em sua missa de despedida, quando de sua transferência para Nazareno: “Fizemos um dia de despedidas. Não foi fácil. Um dia muito doloroso. Partir não é fácil. Deixo meu coração com vocês, deixo meu legado, meu trabalho, trabalho que fizemos juntos. Obrigado pelo amor com que eu tenho sido tratado nessa terra, que é minha terra também. Barroso estará sempre comigo”. Não seria justificável, então, o aperto no peito e a emoção, ao ver regressar para o interior dessa igreja matriz, um corpo sem vida, mas com tantas histórias? Voltava para nossa terra, também sua terra, uma das personagens mais ilustres de nosso município.A morte do Pe Fábio, parecia fazer silenciar uma voz profética! Uma voz paterna! Uma voz amiga! Uma voz… aquela voz! Forte voz! Afinada voz! Confiante voz! Ungida voz, que ao revelar para nós os projetos divinos, ao aconselhar, ao direcionar espiritualmente o povo, ao pregar, ao cantar as maravilhas de Deus, tornava-se para nós, a própria voz divina a nos orientar. Afinal, o padre age em persona Christi, na pessoa de Cristo, tornando-se sua voz, seus pés, seu abraço, seu afeto.A imponência da voz do Pe. Fábio anunciava uma figura firme, destemida e protetora. Não foram poucas as vezes em que ele exerceu em nossa cidade o papel de denunciador dos problemas sociais, políticos, econômicos e religiosos. Não se deixava inibir por quem quer que fosse, sobretudo, quando tinha plena certeza de que o certo era defender os menos favorecidos. Por isso, ele proclamava de forma rude, a preferência de Jesus Cristo pelos pobres. Como afirma o profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai as veredas a nosso Deus”. (Isaías 40:3). Pe Fábio era uma figura respeitada, inclusive, pelos nossos irmãos evangélicos, porque mostrava, com muita firmeza, que seu papel sacerdotal era o de estar, de corpo e alma, como pastor e guia, ao lado de todos os barrosenses, fosse quem fosse, cresse em quê cresse.Sua morte, parece fazer silenciar para nós, uma voz paterna!Com que amor ele se aproximou dos jovens. Os jovens, estimado tesouro da igreja, e particularmente, de seu ministério sacerdotal. Como foi bonito ver regressar para a vida comunitária tantos jovens e seus familiares, perdidos num mundo conquistador, que por vezes, leva a pessoa humana a perder sua dignidade. Ao atrair a juventude, em meio aos riscos do abismo e do erro, vimos realizar no sacerdócio do Pe Fabio aquela expressão que encontramos no livro do êxodo: “Ouve agora minha voz, eu te aconselharei, e Deus será contigo” (Êxodo 18:19). E muitas vezes, sua voz parecia trazer para nós, as acertadas palavras de Deus que não nos deixa sem resposta.Sua morte parece silenciar a voz que deu voz a tantos que são silenciados. Nesse sentido, a voz do Pe Fábio se materializou nas tantas obras por ele mantidas, aprimoradas ou idealizadas. Do respeito e carinho para com os idosos do Lar Nossa Senhora de Fátima até a atenção e cuidado pelo bem estar administrativo e financeiro do Hospital Macedo Couto; da preocupação com a formação dos jovens barrosenses ao abraçar a causa de reabertura do Colégio São José até sua visita carinhosa aos enfermos. (Abro aqui um parêntese para destacar o quanto Pe Fábio era amado pelos enfermos assistidos pela nossa comunidade. Em muitas das casas desses enfermos vemos, inclusive, sua foto num porta-retrato ou na parede, num oratório ou ao lado da cama); Materializou-se também seu trabalho na implementação de pastorais sociais que ajudassem de perto as pessoas mais sofridas, como a pastoral da criança, pastoral da saúde e sua farmácia comunitária, a extinta pastoral carcerária e talvez, aquele que foi o maior legado de sua ação pastoral em favor dos pobres de nossa cidade: a pastoral social e seu trabalho no CEPAS.Sua morte parece silenciar para nós um modelo de piedade!Quantas lágrimas derramadas quando escutávamos as canções que embalavam nossa fé, na introdução do Santíssimo Sacramento no Ginásio do Ceclans em dias de Corpus Christi. E a alegria vibrante de sua voz ao cantar os louvores de Maria no mês de maio? Com quanta fé entoava o Hino de nossa amada padroeira, a senhora Sant’Ana, e com mesmo entusiasmo gostava de solar a proclamação da Páscoa, os salmos da vigília, e a bela e tocante música Romaria. A piedade do Pe Fábio era percebida também no silêncio: diariamente, antes de todas as celebrações, ele ajoelhava-se diante de Jesus sacramentado. Quanto amor ele nos ensinou a Jesus na Eucaristia. Fez valer seu apostolado na medida em que nos mostrava como é importante adorar a Deus e nele confiar. Como dizia na homilia de sua missa de despedida, “somente porque confiei e confio em Deus é que tenho força para continuar. Entender isso é crucial em nossa trajetória humana”. Sua morte parece silenciar para nós um modelo pastoral!Afinal, escutá-lo por esses anos era como escutar o pastor, a inconfundível voz do pastor, que norteia as ovelhas. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; Eu as conheço, e elas me seguem.” (Jo 10, 27).Se hoje Barroso chora, é porque suas marcas foram profundas em nós; obrigado por cada uma delas: somos hoje melhores do que ontem. Fomos forjados por suas palavras, reestruturados.Que sua voz, Pe Fábio, se junte no céu, ao coro dos anjos, para cantar e bendizer eternamente aquele que tudo fez, aquele pelo qual o senhor se entregou confiante. Confiança era sua singular característica. Não foram poucas as vezes em que, ao programarmos as celebrações paroquiais, as festas mais solenes, e diante de meu medo e insegurança, o senhor sempre dizia: “Confia em Sant’Ana. Ela é uma poderosa intercessora. Ela tem um carinho especial por nós”. Tenho certeza de que, por muito cofiar, goza da beleza de Deus, podendo vê-lo sem sombras nem véu. Sua profissão de fé, tantas vezes dita em conversas informais, reafirmada nas pregações e cantadas no Te Deum, lhe fez merecedor da misericórdia divina. Posso ainda escutá-lo dizer o quanto era singular e importante a profissão: “Em ti confio, que eu não seja envergonhado”. Por muito confiar e por muito amar a Deus, unimos nossas vozes hoje, como paroquianos de Sant’Ana, como amigos, como povo barrosense, para render graças a Deus pelo dom da vida partilhada e construída conosco. Hoje, em meio à dor da despedida, fica para nós como mensagem de esperança e fé, gratidão e amor, aquela analogia que o próprio Pe. Fábio sempre se servia nas missas de corpo presente: somos um barco que navega seguindo seu caminho e, que em certo momento, desaparece aos olhos do espectador. Assim é a vida, na medida em que vamos ao encontro de Deus, o barco vai desaparecendo, mas isso não quer dizer que o barco não esteja lá. Deixamos de ver o barco, mas agora ele é avistado por Deus que espera do outro lado de braços abertos. Tenho a sensação de que foi assim que o Pe Fábio se encontrou com Deus: deixou-se envolver pelo abraço do Pai, com um lindo sorriso nos lábios, feliz por ver se cumprir aquilo que tanto acreditou: Foi redimido pelo sangue do Cordeiro. Em meio à dor, fica para nós seu ensinamento: “Não se perturbe o vosso coração. Confiem em Deus” (João 14:1). “Deus é a minha salvação; terei confiança e não temerei. O Senhor, sim, o Senhor é a minha força e o meu cântico; ele é a minha salvação!” (Isaías 12:2).Sentiremos a ausência do ecoar de sua voz, mas não a deixaremos silenciar porque o senhor, Pe Fábio, continuará falando em nós. Descanse em Paz!

Douglas Willian Ferreira.

Paróquia de Sant'Ana do Barroso
Criada por provisão episcopal de 17 de janeiro de 1884. Foi fundada por Antônio da Costa Nogueira em 1729.